ROGER ANALISA PRIMEIRO MÊS NO GALO, PROJETA TIME PARA LIBERTADORES E FALA DO MESTRE TITE

A um mês da estreia no torneio sul-americano, técnico fala dos planos no clube

Roger Machado completou nessa terça-feira um mês no comando do Atlético. Foram 31 dias em busca de conhecimento sobre o grupo, o clube e o torcedor. De cara, precisou, ainda, esboçar o equilíbrio da equipe, um dos pontos mais questionados na temporada passada. O próximo mês de trabalho também será crucial. Em 8 de março, o Galo estreia na CopaLibertadores contra o Godoy Cruz, em Mendoza, na Argentina. O torneio é a prioridade do alvinegro em 2017. “O time precisa estar em sua melhor forma física, técnica e tática”, admitiu Roger, em entrevista exclusiva ao Superesportes. Durante o bate-papo, a palavra“equilíbrio” apareceu mais de uma vez. Fazer com que o time defenda com eficiência e mantenha a característica ofensiva dos últimos anos norteia o trabalho dele. “Numa equipe campeã, decidimos os títulos pelo ataque, mas a construção do título é defensiva”, afirma.
Jogador com carreira vitoriosa – foi campeão da Libertadores e do Campeonato Brasileiro e tetra da Copa do Brasil –, Roger ainda revela que o desejo de virar treinador veio em 2001, a partir de uma provocação que partiu de Tite, então treinador do Grêmio. O atual comandante da Seleção Brasileira acabou se tornando uma referência para ele, que também buscou conhecimento em livros, hábito fomentado com um “empurrãozinho” da irmã Maria Helena.

Você completou um mês no Atlético. Quais foram as dificuldades e o que conseguiu implantar de sua filosofia?

Um mês é pouco quando a gente fala em três ou quatro temporadas. Numa média temporal que um treinador brasileiro tem para trabalhar, é um tempo que permite fazer uma reflexão do que passou. Foi um mês de pré-temporada, em que conhecemos os atletas e suas características. Todos nós nos enfrentamos, mas é somente no dia a dia que conhecemos de fato os jogadores em suas virtudes, naquilo que eles precisam melhorar, em quais posições se sentem à vontade. Esse período foi para conhecer o grupo em profundidade, entender culturalmente muita coisa do Atlético e conhecer de fato o que sempre ouvimos do torcedor do Galo, que é apaixonado. É preciso entender essa relação e tudo o que ela envolve. Quando você anda na cidade, o torcedor lhe aborda e mostra o otimismo pelo futuro do trabalho. Foi um mês de desenvolvimento, em que procuramos um equilíbrio como equipe e a melhora da organização coletiva para entrarmos bem nas competições, como foi no Mineiro.

O Atlético também está a um mês da estreia na Libertadores, uma das prioridades do clube. Como você espera ver a equipe na estreia, contra o Godoy Cruz, na Argentina?

A ideia é que a gente consiga chegar com a equipe no melhor momento possível. Na Libertadores, competição extremamente importante, o time precisa estar em sua melhor forma tanto física quanto técnica e taticamente. No próximo mês, vamos solidificar algumas coisas, melhorar outras e ter definitivamente a cara da equipe com a qual o torcedor se identifica e consiga enxergar em campo.

No Grêmio, você mostrou preferência por jogadores mais técnicos no meio-campo, com menos poder de marcação. Como pretende implantar esse estilo no Atlético, que sofreu com problemas defensivos no ano passado?

O importante numa construção coletiva é ter um time com capacidade de reter a bola com a maior organização possível. Para que isso aconteça é necessário bom passe e domínio. É preciso ter os fundamentos bem desenvolvidos. Numa equipe campeã, decidimos os títulos pelo ataque, mas a construção do título é defensiva. Se a organizarmos bem defensivamente, estaremos próximos de roubar a bola do adversário e de jogar com qualidade. O time que a torcida do Atlético gosta de ver em campo é aguerrido quando não tem a bola, mas procura o gol quando tem a posse dela. Isso não desejamos perder.

Ainda falta alguma peça, como a de um primeiro volante?

Tenho vários que podem jogar como primeiro volante, como Rafael Carioca, Yago e Ralph. O Elias, que está chegando agora, também atua nessa função. A grande questão é que hoje o futebol permite ter uma saída qualificada de trás, e esses jogadores são fundamentais na construção do jogo no campo de defesa. O ideal seria que tivéssemos a capacidade de ter a característica conjugada de desarmar e passar com qualidade. A gente vai descobrindo os jogadores, como foi o caso do Danilo, que já atuou nessa função. Precisamos de uma peça com virtudes e capacidades técnicas e físicas de marcar bem e chegar à frente. Do meio para a frente, temos atletas de alta qualidade. A origem de muitos deles que jogam pelos lados é atuando como segundo atacante. Isso faz que precisem de adaptação. Por isso, a necessidade de encontrar o equilíbrio com outros jogadores de características distintas. É um processo que continuamente vai sendo atualizado. Montamos uma equipe, identificamos o perfil e uns se adaptam e outros não. A tendência é trocarmos menos peças até que o grupo fique homogêneo de forma definitiva.

O Cazares foi um dos mais elogiados pela técnica e pela visão de jogo, mas teve problemas extracampo que prejudicaram seu rendimento. O que o leva a acreditar que em 2017 ele será um dos grandes jogadores do Atlético?

O talento tem que ser a base da avaliação. Tenho que mensurar a questão técnica, tática e física do jogador. Temos que colocar um peso em outras questões que vêm com isso, mas avaliar de forma equilibrada. Já tive 18 anos e fui jogador. Entendo a visibilidade, o prestígio e a ascensão rápida. É fundamental que comandante entenda essa transformação e faça o atleta compreender que o carro-chefe é o campo. Não há problema algum que um jogador, depois de um jogo ou numa folga, saia com a namorada ou vá a algum evento. É necessário, porque a pressão sobre ele é grande. Além disso, ele vai descansar a cabeça e, consequentemente, o músculo. Não são somente o trabalho regenerativo na banheira de crioterapia e as corridas no campo que descansarão o atleta. No caso específico do Cazares, o ano passado ficou para trás. Até este momento, ele teve conduta exemplar. Não tenho nada a falar da conduta extracampo de nenhum atleta, até porque se eu tiver que cuidar do campo e do extracampo não terei braço para tudo. O que não pode é incomodar durante a semana e não incomodar o adversário no domingo.

Você é um técnico estudioso, que buscou uma formação para assumir um grande clube e se inspirou no Tite. Como ocorreu esse amadurecimento?

Talvez eu tenha começado a jogar já entendendo o que gostaria de fazer no pós-carreira. A questão do gostar de estudar e ler se deve a um hábito fomentado. Não tinha esse costume. Minha irmã (Maria Helena), administradora de minha carreira, é professora de português e francês. Não foram raros os momentos em que ela ouviu uma entrevista minha e me ligava dizendo que havia conjugado o verbo errado. Em vários momentos, quando comecei a viajar a trabalho, embaixo de minhas roupas havia um livro. E eu falava: ‘Maria Helena, eu não gosto de ler’. Ela me dizia que era para ler quando o avião se atrasasse. Um dia, ele atrasou e comecei a ler e a me acostumar com o hábito na concentração. Ler um livro é melhor que ver um bom filme. Parar de jogar e estudar foi um hábito quase familiar, que teve incentivo do Tite. Em 2001, quando tive uma lesão no joelho, comecei a me interessar por questões táticas. Ele me deu um disquete com um programa chamado Tática 3D e me disse que isso seria meu futuro. Comecei a brincar de fazer jogadas num programa que uso até hoje. O Tite é acessível e humilde e dividia com a gente as questões do jogo, o que me estimulou a buscar literatura no futebol. No Brasil, não encontramos nada sobre tática. Gostaria de ler um livro do Telê Santana sobre a tática que o tornou campeão, ou mesmo do Ênio Andrade. Tive de buscar essas informações fora do Brasil. Ganhei um livro do Tite sobre táticas. Ele é um pilar dessa minha formação como treinador.

Fonte:uai.com

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